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sábado, 2 de maio de 2020

A beleza sempre tem um preço, mas a que custo?




Já se perguntaram de onde vêm as extensões de cabelo humano? Pois bem…. Aqui está uma história arrepiante de uma mãe indiana que cortou e vendeu o cabelo por apenas 1,81€ para dar de comer aos filhos que estavam esfomeados. Esta família, como tantas outras nos países menos desenvolvidos, vive numa situação muito precária, sendo levada a tomar medidas extremas como a desta mãe (ou do pai das crianças que acabou por cometer suicídio). É um absurdo pensar que esta mãe vendeu o cabelo por tão pouco e, no entanto, esse mesmo cabelo vai ser revendido por preços exorbitantes nos países mais desenvolvidos.
A China e a Índia são dos maiores fornecedores de cabelo humano. No entanto, na Índia, existe um ritual em que as mulheres oferecem os cabelos,O cabelo provém de um ritual de tonsura, em que participam não só mulheres como também homens. No templo hindu de Tirumala, na cidade de Tirupati, Sudeste da Índia, 500 barbeiros cortam o cabelo a dez mil pessoas por dia. Ninguém sabe muito bem o que acontece às toneladas de cabelo humano dos crentes, mas fontes credíveis dizem que o cabelo é recolhido a cada seis horas e colocado em contentores selados até ao dia do leilão anual". Apesar disto, existem casos de mulheres na Índia que são assaltadas para lhes roubarem o cabelo: “Mais de 50 mulheres apresentaram queixa por lhes terem cortado cabelo enquanto estavam inconscientes”.
A prática de usar extensões de cabelo humano é maioritariamente para fazer com que as mulheres dos países mais desenvolvidos em que estes vão ser vendidos se sintam bonitas e na moda. A grande maioria das mulheres “comuns” quer usar extensões de cabelo sem pensar na razão. A resposta poderá estar no facto de quererem ser iguais às celebridades que as usam.
                  É verdade que a beleza sempre tem um preço, mas a que custo?
Termino com as palavras do jornalista Bruno Horta, que já acima citei: “É sabido que há cada vez mais mulheres que recorrem às próteses de cabelo humano para alcançarem um aspecto glamoroso. Mas o ponto de partida do negócio é ainda um enigma: porque razão há mulheres de países pobres que vendem ou doam o seu próprio cabelo - e em que condições o fazem?”
  Micaela Juravle

https://www.sabado.pt/mundo/detalhe/o-estranho-caso-de-roubo-de-cabelo-feminino-na-india

  • Horta, Bruno."Sabe de onde vem o seu cabelo?", Público, 14/12/2010
 
  • S/A, "De onde vêm os cabelos da moda?", Correio da manhã, 25/10/2009

  •  S/A, "Mãe vende cabelo por menos de dois euros para alimentar os filhos", M80, 3/03/2020

 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

CONTRAPOINTS E CORPORALIDADE


Segundo o cânone clássico da filosofia acessível ao público pelo ensino secundário e pela opinião popular, quem filosofa são pessoas antigas de séculos passados, alemães rígidos com palavras compridas e sentido de dever. Dificilmente estabelecemos uma ponte entre o panteão dos filósofos e os assuntos mais quentes da contemporaneidade, como feminismo e políticas de género  no ocidente. Afinal quem é que participa na filosofia hoje em dia?
O tema da corporalidade, por exemplo, foi abordado em 1962 por Merleau-Ponty apontando uma relação entre a consciência social, cultural e o corpo: “A cultura científica ocidental requer que tomemos os nossos corpos simultaneamente como estruturas físicas e como estruturas experienciais vividas”.[1]  A corporalidade é o modo como habitamos o corpo ocupado por toda as questões da vida. Cada corpo tem uma experiência diferente. Cada uma destas experiências resulta de preconceitos, hábitos, medos e vivências.
Os intelectuais de hoje vêm de vários backgrounds, o canal de YoutUbe ContraPoints é um bom exemplo para começar. Natalie Wynn, a sua autora, é uma mulher transgénero que deixou a carreira universitária em Filosofia para se dedicar a este projeto. O seu canal nasceu para argumentar contra conteúdos alt-right (alternative right) e de extrema direita, discutindo também políticas de género no atual ambiente político. Por exemplo, o seu vídeo Men propõe um diálogo com uma comunidade pouco discutida na coletividade de esquerda na internet: os novos homens, adaptando-se às exigências dos tempos contemporâneos e sentindo-se, por vezes, atacados pelo discurso do feminismo radical(izado).



Natalie Wynn
Wynn sublinha que poucas pessoas têm a experiência de viver em dois géneros diferentes e poder olhar o mundo de perspetivas distintas. Sendo trans, a filósofa-performer admite que pode ter algo de interessante para partilhar relativamente à sua experiência. O facto de ser uma mulher branca fê-la perceber que, em geral, as mulheres têm direito a ser cuidadas, “os homens fazem coisas por mim”, andar à noite tornou-se mais assustador e agora não mete medo a ninguém (“ninguém tem medo de mim”). Ou seja, o fator que mudou não foi só o corpo, mas sim a forma como as outras pessoas respondem a esta corporalidade, social e culturalmente.
Segundo a youtuber, os homens são tratados como perigosos por definição. Isto pode ser malicioso especialmente se tivermos em conta outras identidades. Natalie Wynn conta a situação num elevador onde ela se encontrava sozinha com um homem negro, que começou a assobiar a música infantil “Row Row Your Boat”, numa tentativa de mostrar a sua inocência. Tendo em conta os preconceitos raciais da cultura estado-unidense, Wynn apercebeu-se de que aquele homem temeu que ela tivesse medo por estar sozinha com um homem negro. Sugiro, pois, vivamente uma tarde a ouvir os pensamentos e opiniões desta mulher e de outros youtubers como Kat Blaque e Oliver Thorn.


Kat Blaque
Ana Nobre

[1] Dreyfus, Hubert L. "The Embodied Mind, Cognitive Science and Human Experience" Mind, vol.102, no. 407, 1993.

Esquema modelo do colóquio

Agradeço ao Pedro Martins ter disponibilizado o seu trabalho para partilha!


sábado, 21 de março de 2020

Aula 20 março

Viva, para quem não conseguiu estar ontem presente na nossa primeira aula online, deixo alguns dos materiais analisados e sugiro que peçam apontamentos aos colegas. Fizemos um esquema minimalista deste anúncio, ao qual fomos acrescentando informação. Usem esta estratégia para a análise dos vossos textos publicitários (e façam-nos antes das reuniões de trabalho já agendadas, por favor!) e não se esqueçam de colocar todo o texto verbal num documento Word de modo a que o possam interpretar como se de um texto literário se tratasse. 
Reagendámos a entrega do esquema de análise do vosso trabalho de grupo para o dia 1 de abril.






Como indicado, a partir de agora retomaremos as aulas no nosso horário regular, através da plataforma Zoom, com as credenciais por mim já partilhadas por email.[1]
 Na próxima aula vamos analisar os posts Williamson 1, 2 e 3 (com os respetivos Case Studies); por favor, leiam atentamente a bibliografia (se por acaso alguém não conseguir ter acesso, entre em contacto comigo!) e procurem comentar os posts de modo a termos material para diálogo durante a aula online.


[1] Join from PC, Mac, Linux, iOS or Android: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/8562630066
Or iPhone one-tap:  308804188,8562630066# or 308810988,8562630066#
Or Telephone:
    Dial: +351 308 804 188 (Portugal Toll) or +351 308 810 988 (Portugal Toll)
    Meeting ID: 856 263 0066
    International numbers available: https://videoconf-colibri.zoom.us/u/aexVGglNmb
Or a H.323/SIP room system:
    H.323: 162.255.37.11 (US West) or 162.255.36.11 (US East)
    Meeting ID: 856 263 0066
   SIP: 8562630066@zoomcrc.com

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Será que o belo sempre foi belo?

Boa tarde colegas,
Como vimos ao longo do semestre, o corpo das mulheres tem vindo a ser o principal foco de objetificação, integrado num padrão de beleza imposto pela sociedade. Todavia, a percentagem de homens pressionados a estar dentro do padrão de beleza masculina tem vindo a crescer.
Mas o que é de facto o padrão de beleza? Será que este existe mesmo? E se existe, então o que é de facto a beleza? Será que existe, de facto, um padrão comum a todos?
A resposta é não. Não existe um único padrão de beleza. Existe sim uma preferência estética, e esta é bastante variável. A preferência de alguém por alguma coisa é bastante mutável, pois não é algo pré-definido. Durante toda a nossa vida somos influenciados pelo que nos rodeia e pelo que experienciamos. Somos moldados por vários fatores, desde a nossa cultura e educação, até às nossas experiências e ambições, que geram determinadas formas de pensar. São essas mesmas coisas que ditam a nossa identidade. Logo, se ao longo da nossa vida cada pessoa apresenta diferentes preferências para diferentes assuntos, como é que podemos dizer que existe um padrão? Diferentes pessoas têm diferentes gostos não só em coisas banais como comida, música, filmes, livros… mas também quando se trata de estética.  Cada um tem um tipo de corpo que preferência, quer seja para si, quer seja para os outros.
O vídeo abaixo demonstra exatamente isso.



Como pode ser visto no vídeo, o padrão de beleza, quer seja ele masculino ou feminino, muda consoante a região onde vivemos  e consoante a bagagem cultural que trazemos connosco. O facto de pensarmos que existe um padrão de beleza não passa de uma ilusão criada pelas indústrias capitalistas, que têm como objetivo vender produtos através da promessa de criação de algo que não existe, neste caso um corpo perfeito. A maior ilusão de todas é, provavelmente, a ideia de que existe um único padrão através do qual uma mulher poderá ser considerada bonita, e socialmente aceite. Claro que esta mulher só conseguirá enquadrar-se no padrão se comprar produtos de beleza ou se realizar determinados procedimentos estéticos. Porém, tal como demonstrado no vídeo abaixo, esta ideia é bastante falaciosa, pois o padrão de hoje em dia nem sempre existiu.



De modo idêntico ao corpo, também a indústria da moda, tanto feminina quanto masculina, sofreu mutações ao longo do tempo.



A grande questão que aqui se coloca é o facto de, conhecendo estas mudanças, continuarmos a acreditar que não podemos ser de determinada forma pois tal não se adequa ao padrão vigente, quando, na verdade, a nossa forma muito provavelmente foi considerada um padrão de beleza numa outra época histórica. 
No entanto, as grandes indústrias escolhem pessoas com corpos e características semelhantes para publicitarem os seus produtos, passando ao público a ilusão de que toda a gente é (ou poderá vir a ser) assim. Daí os corpos das modelos escolhidas para as campanhas publicitárias não divergirem muito uns dos outros, como podemos ver na imagem abaixo.

Para mais, é importante ressaltar que nalguns casos nem as próprias modelos possuem esse tipo de corpo, pois, após a sessão fotográfica, as imagens seguem para uma edição de PhotoShop que altera radicalmente os corpos.


No entanto de tempos a tempos são realizadas algumas campanhas que visam acabar com este padrão — uma das mais recentes foi feita pela Dove. Procurando demonstrar algumas das pressões sofridas pelas mulheres, esta campanha desconstruiu a ideia do corpo perfeito. O vídeo abaixo reproduzido sublinha que a beleza é relativa à nossa capacidade de a reclamar.

     

Obrigada por lerem e até amanhã😊
Inês Fonseca 153674

Movimento #nãoénormal

Olá colegas,
Hoje venho falar-vos de um movimento que talvez muitos ainda não conheçam, pois eu própria descobri-o recentemente no Instagram, através de uma amiga que seguia a página.


Decidi, então, explorar esta pista e percebi que este movimento é um manifesto que tem por objetivo combater o machismo e o abuso sexual, abordando, por exemplo, questões sobre o assédio. O movimento foi criado por Diogo Faro, um comediante que lançou um desafio nas redes sociais, apelando às pessoas para lhe enviarem um e-mail com a palavra “eu”, caso tivessem sido vítimas de assédio, pois pretendia fazer um vídeo abordando o tema em forma de comédia.

Segundo este site nas primeiras três horas recebeu mais de 700 e-mails, com relatos chocantes, que o fizeram querer chamar a atenção para o problema do machismo. Juntou-se a alguns amigos e lançou, assim, o movimento.
Apresento-vos, então, o vídeo feito pelo Diogo Faro sobre o machismo e peço desculpa pela linguagem contida, pois é um pouco forte.


Tenho a dizer que concordo com o que é dito no vídeo. O machismo cria violência doméstica (uma questão abordada na última aula, pelo grupo do qual eu fiz parte), violação, assédio; tudo considerado “normal”. Acredito que muitos de nós já nos habituámos ao facto de estas questões fazerem parte do dia-a-dia. Por exemplo, acho que praticamente todas as mulheres no meu círculo já foram vítimas de assédio, só que nunca pensei a sério nesta questão e acabava por esquecer. Este vídeo fez-me entender o quanto a sociedade desvaloriza todas estas questões e as naturaliza. 

Porém, para mim não é aceitável continuarem a repetir-se justificações como “estava bêbada e desmaiada, estava a pedi-las”, “foi a casa dele, estava à espera do quê? jogar às cartas?”. Este tipo de argumentação é injustificável e deixa-me profundamente indignada. A verdade é que enquanto não passamos pelas situações, temos a tendência a desvalorizar estas histórias; até nos podemos indignar, mas, infelizmente, só quando somos vítimas é que ganhamos verdadeira consciência da gravidade da situação.

Muitas vezes não fazemos nada porque pensamos “sempre foi e sempre será assim, nada vai mudar…". Ao mesmo tempo, por mais que tentemos fazer, a verdade é que estas situações são recorrentes e cada vez é maior o número de pessoas que passam por estes abusos sexuais. Na maioria dos casos as pessoas não conseguem sair das situações por medo ou por vergonha e nem sempre é fácil saber quem foram as vítimas e como as podemos ajudar.

Espero, então, que isto deixe de ser considerado “normal”, para evitar que continuem a morrer mulheres em situações de de violência doméstica. Acredito que todos nós, unidos, consiguiremos combater este tipo de mentalidade e criar uma sociedade mais justa.

E vocês? Também foram vítimas de assédio ou de qualquer outra situação extrema de abuso sexual? Qual a vossa opinião? Deixo também aqui ainda a página de Facebook do movimento, para quem queira explorar este tópico.
Grata pela vossa atenção.

Até amanhã!
Cláudia Rodrigues nº151250

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dia Internacional Da Luta Contra A Homofobia

Boa noite Colegas !

Sabiam que existe um dia internacional da luta contra a Homofobia? Estava a navegar na internet, mais concretamente no Facebook, quando me deparei com esta imagem
 Dia internacional Contra a Homofobia e Transfobia (17 de maio)Senti curiosidade e decidi procurar mais informação. Descobri então que se trata de um dia de consciencialização civil sobre a discriminação das pessoas homossexuais, transexuais e transgénero. Tendo em vista promover o respeito pelos direitos da comunidade LGBT, realizam-se nesta data uma série de eventos, desde conferências até campanhas de abraços grátis.


Esta data assinala o dia tem em que se retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1990.



Na minha opinião esta iniciativa faz todo o sentido, pois, cada vez mais se devem sensibilizar as pessoas de todos os seres humanos têm direito à sua identidade e personalidade, mesmo que se diferenciem daquilo que é considerado normal. Logo, qualquer atividade discriminatória ou segregadora está errada e deve ser alterada, através da partilha de iformção, que no fundo é o objetivo principal deste dia.

E que acham vocês desta iniciativa ? 

  Rodrigo Ferreira 
nº- 153655

sábado, 27 de abril de 2019

'Manspreading'

Acredito que grande parte de vós já tenha ouvido falar do chamado manspreading, o fenómeno de os homens, ao sentarem-se em transportes públicos, abrirem demasiado as pernas, por vezes ocupando até dois lugares. Ora, por muitos esta atitude é considerada um exemplo da masculinidade tóxica; isto é, do homem em causa tentar mostrar que é “macho”, oprimindo a liberdade feminina. 

A primeira vez que eu ouvi falar deste termo, foi na FLUL, no segundo semestre do primeiro ano (2018, portanto). Esse meu colega tinha entrado numa turma de determinada disciplina, com uma professora que andava a falar disso nas aulas. E curiosamente, encontrava-se com receio, e com vontade de mudar de turma, pois sentia que ele, sendo do sexo masculino, e sendo mais velho do que todos os outros alunos (acima dos 30 anos), poderia vir a ser prejudicado, face à constante postura da professora. É aqui que se encontra o problema. Não tenho dúvidas de que o manspreading é real, e muitas vezes usado por pessoas que tentam compensar algo. No entanto, trata-se de casos pontuais. E em vez de perguntarmos a razão de tal acontecer, começamos a generalizar este ato, e a incitar ódio. E depois acontecem situações como esta acontecem ( já agora, reparem no teor pornográfico do título).

Eu decidi perguntar-me porque razão por vezes tenho vontade de ter as pernas abertas quando me sento, outras não. Por que razão a minha ideia generalizada e tradicional de um homem é a de o ver com pernas abertas (mesmo sem chegar ao extremo do manspreading), e das mulheres de  pernas fechadas ou cruzadas. Noutros termos, porque é os homens se encontram geralmente com uma postura corporal mais aberta do que as mulheres? Se começarmos a pensar desta maneira, em vez de partirmos logo para “o homem machista quer oprimir a mulher”, encontramos outra perspetiva para a situação, uma perspetiva que nos abre muito mais os olhos.

É sabido cientificamente que quando estamos relaxados, sem tensões, divertidos, presentes, o nosso corpo abre-se, expande-se; e quando estamos nervosos, ansiosos, tensos, o nosso corpo fecha-se (uma reação normal do corpo, como o expandir da caixa torácica, alongamento da coluna, entre outros exemplos). Assim, é normal que estando eu, indivíduo do sexo masculino, confortável e “bem com a vida”, adote uma perspetiva mais relaxada e aberta, o que pode significar que eu tenha as pernas mais abertas. Ora, se estiver mais nervoso, dependendo até da situação ou das condições que me são apresentadas, adotarei uma postura corporal mais fechada, que pode incluir fechar as pernas, ou cruzá-las. 

Como é que isto se traduz nos dois géneros, em contexto social? A noção geral é de que os homens se sentem mais à vontade no dia a dia, isentos de grande parte dos perigos que pairam sobre a mulher. De facto, desde muito cedo que as mulheres são aconselhadas a assumir comportamentos de modo a diminuir as hipóteses de serem molestadas. E isto é algo que muitos homens não têm presente, quer relativamente a mulheres que não conhecem, a amigas ou à namorada/esposa.  

Por exemplo, o National Sexual Violence Resource Center, numa das várias estatísticas constata: “One in five women and one in 71 men will be raped at some point in their lives”. Uma estatística alarmante e que dá que pensar. Penso, por exemplo, na minha primeira namorada, que foi assediada de dia numa paragem de autocarro, e apalpada à noite num bar, ou noutra amiga que também foi apalpada à saída de um bar. Na altura, uma pessoa pode pensar, foi algo pontual, foi mau e estúpido, mas foi algo pontual. No entanto, cada vez mais nos vamos apercebendo de que estas coisas são uma constante que atormenta as mulheres há séculos. A preocupação constante de não ir por aquele lado porque está escuro, de não ir a tal sítio por ser perigoso, de não usar determinado vestido (que adoro!) porque pode incitar algum homem a ter um comportamento violento. E assim nós homens cada vez mais nos apercebemos, pois, de que a nível mais ou menos consciente as mulheres vivem em permanência com a assustadora ameaça de serem violadas, porque a nossa sociedade não respeita os seus corpos.  

Porém, apesar de este facto ser incrivelmente horrível, não acredito que seja através de generalizações e da incitação ao ódio que alguma coisa poderá mudar. Porque o problema de generalizar é que torna fácil o ataque aos movimentos feministas bem-intencionados. Seguido o vídeo desta ativista russa, vieram reações por parte do governo onde defendiam a criminalização do Feminismo, como podem ver aqui.

quem defenda que talvez tenha sido o próprio governo a fabricar este vídeo de propósito não só para esta descredibilização, mas para nos manter em conflito, para não trabalharmos juntos para o mesmo objetivo. Falso ou não, conseguiu incitar as respostas violentas contra o feminismo, que referi anteriormente, e mesmo contra a ativista em si.


Em suma, a generalização é um ato bastante perigoso, e que pode levar ao preconceito e a ataques não só a homens (como parece ter sido o caso documentado no vídeo em questão) e a mulheres, como aos próprios movimentos feministas bem-intencionados. Este tipo de generalizações gera violência e ódio. Em vez de generalizar, e começar a anunciar que todo os indivíduos do sexo masculino são maus, que fazem todos manspreading, ou seja, criar conflito entre os dois sexos, mais divergência, devemos focarmo-nos nas razões de as coisas serem assim e de as mulheres se sentirem tão ameaçado no seu quotidiano, e, sobretudo, naquilo que poderemos fazer para ajudar. Juntarmo-nos para lutar por uma sociedade de igualdade, onde ser homem seja a favor da igualdade e da justiça, reconhecendo os dilemas que afetam o sexo oposto e intervindo sempre que vê ameaças à segurança das mulheres ao seu redor. Ou, talvez utopicamente, para que se crie uma sociedade onde não haja necessidade de heróis, onde as mulheres se sintam seguras para levar a sua vida e serem elas próprias.

António Santos 150381