quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A NECESSIDADE


Diálogo entre “A NECESSIDADE” e “UM ARTISTA”

Acto I, Cena I

(UM ARTISTA está de pé, sozinho no palco de um teatro, com apenas um projector central ligado e a olhar vagamente para o vazio da plateia. Entra A NECESSIDADE e põe-se ao lado dele.)

A NECESSIDADE
O que vês?
UM ARTISTA
Não vejo, penso.
A NECESSIDADE
É esse o teu problema.
UM ARTISTA
Pensar?
A NECESSIDADE
Não. Não ver. Não ver é o teu problema.
UM ARTISTA
Se eu passasse a ver, deixava de ter problemas?
A NECESSIDADE
Não. (breve silêncio) Mas pelo menos estarias mais capacitado para lidar com o vazio.
UM ARTISTA
Qual vazio?
A NECESSIDADE
Vês, como não vês?
(breve silêncio)
Repara, tudo que existe, existe por minha causa. A evolução da espécie, o sexo, a sede, a fome, o nascer, o morrer, o conviver, o estar sozinho... O pensar... E não me faças continuar porque não me apetece, estou cansada e tenho fome. Estou sempre com fome.
UM ARTISTA
O que é que eu estou a fazer de errado?
A NECESSIDADE
Não estás, o problema é esse.
Estás tão fixado na tua própria existência que não me conseguiste ver.
Eu não estou satisfeita... Fui obrigada a vir até aqui chamar-te a atenção.
UM ARTISTA
Então e o que é que eu não estou a fazer?
A NECESSIDADE
A VER!
UM ARTISTA
Mas o quê!?
A NECESSIDADE
O VAZIO! (agarra-o pela cabeça e dão os dois um passo à frente)
O vazio só está vazio porque tu não foste capaz de me ver do outro lado! Eu estive sempre lá, a acenar, a gritar o teu nome!
E sabes qual é o teu maior inimigo? O tempo! Eu adapto-me bem a ele, já tu... (larga-o)
Depois admiras-te quando dizem que o teu trabalho é obsoleto...
UM ARTISTA
E o que é que eu faço?
A NECESSIDADE
Tens de transformar coisas que ainda não são coisas em coisas e fazer com que essas coisas sejam atractivas ao olhar e ao gosto de quem vive neste tempo.
É simples!
UM ARTISTA
Não faço as vontades a ninguém.
A NECESSIDADE
Então junta-te. (começa a sair pela direita de cena)
UM ARTISTA
Junto-me a quem?
A NECESSIDADE
Ao CAMO.
UM ARTISTA
Quem?
A NECESSIDADE
CAMO – Clube dos Artistas Mortos e Obsoletos!
Tchau, vou procurar comida.

FIM?

Filipi Di Ramo

          A propósito da cadeira de Cultura Visual com a Prof. Diana V. Almeida, sempre quis fazer um post neste blog. A falta de tempo seguida de uma leve procrastinação nunca me permitiu fazer mais do que acompanhar o que aqui era postado.
          Eu estou no segundo ano do curso de Ciências da Cultura e, até agora, se alguém me pedisse para resumir o que eu já consegui aprender com o curso numa única frase eu diria: “O que realmente importa não é o que se diz, mas a forma como se diz.”. Essa ideia que me assombrou durante todo o primeiro ano ganhou uma forma mais concreta através desta cadeira. Gosto. Gosto da ideia de que nós podemos influenciar, não as pessoas, mas a forma como elas veem o mundo e abordam certas questões...Talvez porque goste da publicidade, de prender a atenção das pessoas e, acima de tudo, satisfazer o público em geral. De todas as culturas, a Pop Culture é a que eu mais admiro pela capacidade de atrair e influenciar um grande número de pessoas.
          “Homo sum humani nihil a me alienum puto.” é uma frase dita pelo poeta e dramaturgo Terêncio que significa “Eu sou um ser humano e tudo aquilo que é humano a mim não me é estranho.” e que dela se compreende que, se alguém foi, em algum momento, capaz de fazer uma grande acção benéfica para a humanidade, nós também somos capazes de o fazer. De igual forma, se alguém foi, em algum momento, capaz de fazer algo terrível, nós também temos tudo o que é necessário para a mesma prática – o poder de escolha entre o bem e o mal é que nos difere. Esta ideia de que nós podemos influenciar positivamente o mundo que nos rodeia e a forma como olhamos para as coisas não é exclusiva e está também presente na publicidade e em todas as ramificações daquilo a que se pode chamar “Cultura Visual”.
          Também acho importante que as coisas sejam partilhadas - partilhadas com o maior número de pessoas possível. A arte, com toda a sua característica baseada na liberdade criativa, poderia encontrar o seu ideal (ativar o pensamento crítico e estético) se conseguisse atingir também o grande público – mas isso, infelizmente, nem sempre acontece devido a interesses de classe e a pseudo-intelectualismos. Qualquer artista, ou pessoa criativa que queira simplesmente criar e expor a sua obra, poderia almejar o grande público para ter, de forma objectiva, maior influência.
          Através da época, das características culturais, da tecnologia existente e de uma boa gestão de recursos, um criador é convidado a adaptar-se à necessidade dos seus contemporâneos. Essa escolha e liberdade de adaptação permite ao criador sair da sua esfera egocêntrica e fazer do seu trabalho/obra algo muito mais dinâmico culturalmente.
          É esta a minha proposta: uma reflexão sobre a possibilidade de intersecção entre a vontade do artista e a necessidade do seu público alvo.

NOTAS: 
1) Filipi Di Ramo é o pseudónimo registado de J. Felipe Ramos.
2) O blog alterou a formatação do diálogo - daí as diferenças no tamanho das letras.

Cultura Visual – Diana V. Almeida
J. Felipe Ramos
145813

FLUL

1 comentário:

  1. Grata pela inspirada e inspiradora partilha, Filipe, ou melhor, Filipi ;) Gosto do diálogo entre a utopia e o imediatismo que aqui apresenta. Acredito que somos todos criativos e que é precisamente esta característica que nos permite agir no mundo, sonhando, planeando, implementando, avaliando (para poder melhorar) e celebrando as nossas presenças vivas! (Usei os cinco campos de ação definidos pelo Dragon Dreaming, uma ferramenta de intervenção coletiva que muito aprecio!)
    O que me lembra o nosso querido Arnaldo Antunes "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte!"
    https://www.youtube.com/watch?v=hD36s-LiKlg

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