quinta-feira, 14 de março de 2019

Representação da mulher na publidade

Boa tarde colegas,

A nossa aula da passada quarta-feira, dia 13 de março, despertou em mim uma sensação que, infelizmente, já antes senti, pois tivemos a oportunidade de levar com uma lufada de realidade que nos despertou para as questões da representação do género nos anúncios publicitários. A conversa e as questões que tivemos evocaram em mim o momento em que me apercebi o quão sexista, violenta e nojenta a publicidade consegue ser quando se aproveita de mulheres e as torna num objeto descartável, numa mercadoria, num boneco.

Foi no primeiro semestre deste ano letivo de 2019 que uma outra professora da nossa faculdade me despertou para a gravidade da violência contra o corpo da mulher. Por se tratar de uma professora italiana, a publicidade que aqui vou reproduzir é italiana; contudo, como vimos na aula, em Portugal também circula este tipo de lixo.

Os textos publicitários que se encontram neste post vão desde a perpetuação de estereótipos de género, relativamente às funções sociais que as mulheres desempenham, por exemplo, até à comparação da mulher com um animal, demonstrando quão maltratadas somos na nossa sociedade.





Nos dois textos acima, que são para publicitar a mesma empresa de serviços, é feita uma comparação entre a mulher do início do século XX e a mulher de hoje. O intuito desta empresa é publicitar a energia elétrica, equivalendo, por isso, à nossa EDP, pelo que o que a publicidade transmite é que a mulher mudou de energia, mas continua a ser a mesma, estando escrito no cartaz “a energia muda, mas a história é sempre a mesma”. Neste anúncio há claramente uma perpetuação do estereótipo de que a função da mulher é fazer as tarefas domésticas, servindo o homem. Note-se que ao contrário das próximas publicidades, nesta as mulheres apresentadas são já pertencentes a uma faixa etária elevada, possivelmente entre os 65-80, ao contrário das próximas, em que são todas jovens, dando a entender que, quando idosa, a mulher serve o homem nas tarefas domésticas, mas enquanto jovem serve-o sexualmente.



Para além disso, o discurso publicitário incentiva também à violência contra a mulher. Num anúncio de panos, como o de cima, a ideia é que a qualidade do produto é tal que este consegue limpar até os vestígios de um ato de violência sexual, provavelmente uma violação.  Este tipo de comportamentos é não só desculpado, como também incentivado, validado pelas narrativas implícitas na publicidade, tal como mostra o seguinte exemplo de uma campanha que se tornou muito polémica por glamourizar o gang rape.


Nos exemplos seguintes, a mulher é comparada a um animal que se encontra embalado, na primeira foto, e cozinhado, na segunda imagem. No primeiro anúncio é publicitado um serviço que nada tem que ver com a mulher e esta não só é colocada como cara deste anúncio como é violentamente comparada a um bife pronto a ser consumido. No segundo caso, que publicita um restaurante, a imagem da mulher é equiparada à de um porco no forno, o que, a menos que o restaurante venda carne humana, é completamente ridículo e lamentável.

Porém, a ideia mencionada na aula de que a mulher serve para "ser comida" não se fica por aqui. Nos três anúncios publicitários abaixo, os produtos alimentares encontram-se não só posicionados em zonais genitais, como ainda por cima vendem a ideia de que o produto é tão bom, saberá tão bem como fazer sexo. O iogurte encontra-se junto às nádegas da mulher, que são comparadas a fruta. O gelado promove-se como se de seios se tratasse e o vinho é para ser degustado como se fosse uma vagina. A forma como a mulher, que raramente tem um rosto, é retirada da espécie humana, e representada como um mero corpo de prazer é escandalosa.

 

Além do uso violento e repugnante do corpo da mulher, promovendo o abuso sexual do corpo feminino, também se denigre a imagem da mulher enquanto ser reprodutor, que menstrua, através do símbolo de uma companhia cinematográfica conhecida por ter como símbolo um leão (a Metro Goldwyn Mayer). Neste caso o anúncio pretende demonstrar que uma mulher menstruada se torna uma fera indomável, com o objetivo de vender um alívio para a dor, ou seja, um meio de a mulher ser dominada. 
Enquanto mulher, este tipo de texto publicitário revolta-me, choca-me e deixa-me imensamente desconfortável. Efetivamente, não acredito que tenha de ser a única pessoa a fazer as tarefas domésticas, não me considero um mero objeto sexual ao serviço do prazer masculino, não sou um animal pronto a comer nem gosto de ser dominada, desrespeitada e abusada. A perpetuação do machismo tóxico na nossa sociedade é gritante, está ao nosso redor, debaixo dos nossos narizes todos os dias e nós não temos de aceitar este tipo de textos. Na Itália, pelo que me recordo da apresentação da professora, as mulheres aceitam e consideram este tipo de texto normal, não vêm os problemas deste tipo de texto. Felizmente em Portugal, este tipo de representação não é tão explícito; no entanto, as representações sexistas da mulher persistem. Cabe-nos a nós mulheres, dizermos basta!

Resto de um bom dia, até amanhã!

Micaela Henriques Nº153621

3 comentários:

  1. Muito grata pelo seu excelente post, Micaela (tomei a liberdade de retirar algumas das suas repetidas expressões de indignação, porque neste tipo de empenho feminista, a análise deve manter-se focada no objeto, devendo bastar para mover consciências).

    Partilho aqui alguns outros posts do nosso blogue que lidam com questões semelhantes:
    http://culturvisflul.blogspot.com/2016/05/american-apparel.html
    http://culturvisflul.blogspot.com/2016/05/boa-tarde-todos-encontrei-este-articolo.html
    http://culturvisflul.blogspot.com/2016/03/boa-noite-pessoal-sobre-o-papel-da.html

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  2. Já agora, partilho também um outro post em que uma vossa colega propõe uma análise brilhante de uma campanha da Nestlé para crianças
    http://culturvisflul.blogspot.com/2014/05/caros-colegas-enquanto-procurava.html

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  3. E não resisto a deixar a versão egípcia desta campanha que, curiosamente, reparo agora ao voltar a pesquisá-la, está a ser sistematicamente apagada da internet, talvez por a Nestlé ter recebido críticas quanto ao seu sexismo descarado.

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