quarta-feira, 15 de abril de 2020

Análise de texto_Resposta-modelo 4


Comentário do excerto apresentado, considerando as estratégias discursivas dos textos publicitários e a sua função político-económica na atualidade.  

A publicidade impele o interlocutor a adquirir, não no sentido restrito que diz respeito apenas às necessidades reais de cada um, mas antes conduzindo à aquisição de bens como veículo catártico que promete a transcendência do sujeito, na esperança de satisfazer as necessidades induzidas pelos mecanismos de persuasão.   
O sistema político-económico-social atual – neoliberalismo – parte do pressuposto que a escolha cabe aos indivíduos, e que esta é alicerçada na liberdade. No entanto, urge perguntar qual será o efetivo poder de escolha de um indivíduo que é (sempre) parte integrante de uma comunidade? 
A lógica capitalista do consumismo oferece-nos várias opções, não resultando daí necessariamente um verdadeiro leque de escolhas; num oceano de falsas opções onde residirá, então, a liberdade individual? 
Numa matriz social pautada pelo individualismo, pela globalização e pela liberdade individual, o consumo é entendido como uma extensão daquilo a que podemos chamar as formas de sociabilidade e os processos identitários dos sujeitos – ou seja, somos o que consumimos.   
A publicidade atua, e é entendida, como reflexo inquestionável do mais abstrato dos conceitos modernos – a felicidade. Esta torna-se uma `espécie´ de mercadoria, na medida em que é consubstanciada na ideia – puramente simbólica –, que à mulher de César não basta ser séria, tem de parecer séria. O homem moderno sofre deste complexo – não lhe basta ser, tem de parecer. 
Atingir este estado de plenitude que se convencionou por felicidade implica a posse/aquisição das mercadorias imbuídas do simbolismo a que queremos estar associados, consequentemente, aquilo que possuímos é definidor daquilo que somos, como já acima referi. 
No final do século XIX e início do século XX, a superprodutividade e a fusão entre o capital industrial e financeiro marcaram o início de uma nova etapa do capitalismo, de carácter intensivo e baseado grandemente na especulação. O capitalismo financeiro intensifica e promove a concentração de capital sob o domínio de empresas gigantescas, os trustees[1], que controlam desde a extração da matéria-prima até à comercialização dos produtos. 
Neste tipo de capitalismo monopolista, os investimentos na criação de mais-valia para as mercadorias representam a nova forma de concorrência entre as grandes empresas. A crescente diversificação na produção, o uso da tecnologia em favor de uma obsolescência programada e o estímulo ao consumo por parte da publicidade comprovam os mecanismos cada vez mais racionais utilizados como “armas de guerra” entre os monopólios para obtenção de lucro.
A política da social-democracia de cariz neoliberal vigente nesta nova etapa prega a “democracia das massas”, modificando os mecanismos do sistema produtivo a fim de instigar nos indivíduos novas carências, que levam ao consumo de grande diversidade de bens industrializados. 
A industrialização, a crescente urbanização e o anonimato a que os indivíduos foram expostos, sobretudo nas grandes metrópoles, colaboraram em grande medida para modificar a forma como se configuram as relações sociais na contemporaneidade. As mudanças na estrutura económica e nos valores socioculturais abriram espaço para a formação de novas fontes de referência na composição da identidade individual. Duas das principais fontes de referência são a publicidade e os mercados financeiros, que reforçam uma sociedade de consumo de massas. A força da publicidade na implantação destes novos modos de vida é inquestionável. De facto, o seu papel manipulador permite que as exigências do modo de produção capitalista sejam cumpridas.
Simultaneamente, as formas de organização do trabalho foram alteradas, possibilitando a criação de novos métodos para intensificar o ritmo da produção. Os princípios do taylorismo[2] e do fordismo[3] foram levados às últimas consequências, o que aumentou ainda mais a necessidade de fazer escoar esta superprodução.   
Os Estados bem ´abastecidos´ promovem/vendem a ideia de bem-estar social, da chamada “qualidade de vida”. As crises de superprodutividade e subdemanda que, por sua vez, exigiram a ampliação do mercado (sobretudo para o consumo de bens supérfluos) e a reestruturação das necessidades individuais, são em larga medida promovidas pela atuação da publicidade, que, acelerando este processo de “educação” dos indivíduos para o consumo massivo, encaminha a humanidade para o abismo existencial. De facto, a alienação, o egocentrismo, o narcisismo, o vazio e a superficialidade, com impacto tanto a nível sociopolítico como ecológico, são algumas das características da sociedade de consumo e da produção em massa. 

Bibliografia
BERGER, Jonh. Ways of Seeing. London: Penguin, 2008. 

Nilton Fonseca

[1] Trustees são estruturas empresariais típicas do que se convencionou como capitalismo monopolista. Exemplo disso foi a compra da Yahoo e da Nokia pela Microsoft. Nesse sentido, boa parte do mercado, ao invés de ser gerido pela lei da livre concorrência, está condenado ao monopólio ou ao oligopólio, embora – aparentemente – as grandes fusões do mercado atual não tenham extinguido a competição.
[2] Forma de organização do trabalho baseada em tarefas simples e rápidas, desenvolvida pelo economista norte-americano Frederick Taylor (1856-1915).
[3] Forma de organização do trabalho proposta por Henry Ford (1863-1947) e baseada no trabalho em cadeia e na produção em série, que deu origem à produção em massa.

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